XXXVI Encontro Nacional de Pastoral Litúrgica









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DOSSIER Especial: Debater a Educação

Tema 5 - Ciência, Investigação e Desenvolvimento Educativo

 A quinta área temática incide sobre uma magna questão para a sociedade portuguesa: como vamos melhorar a capacidade de investigação e de produção científica para sustentar quer os elevados níveis de desempenho pessoal e profissional que hoje são requeridos quer uma economia baseada no conhecimento? Para equacionar a questão daremos especial atenção à formação científica e técnica de todos os portugueses e ao papel do ensino superior, universitário e politécnico, reconhecendo que o contexto periférico do país e o atraso educativo que persiste reclamam muita audácia e compromissos políticos inequívocos.

 

Responda às seguintes questões (individualmente ou em grupo)

  • Que modelos de produção científica teremos de solidificar e de criar de novo para sustentar o desenvolvimento de uma economia baseada no conhecimento?
  • Como vamos aproveitar o “Processo de Bolonha” para evoluir para paradigmas educativos renovados, com a complexidade cultural, pedagógica e organizacional que eles comportam?
  • Que medidas devem ser tomadas para melhorar a qualidade da formação científica e técnica dos portugueses?
  • Que fazer para atrair, acolher e criar boas condições de formação aos novos públicos da educação?
  • Que novos modelos adoptar para a gestão da qualidade no ensino superior e que referenciais devem orientar a construção da excelência?

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O desemprego crescente dos jovens, que já hoje flagela alguns países europeus, tenderá a generalizar-se nos países periféricos e pouco qualificados como o nosso. Os graduados das melhores universidades de alguns países, como a França, nunca foram tão procurados nem tão bem pagos. Os fluxos migratórios mundiais para as universidades de maior prestígio são hoje uma realidade em rápida expansão. Que papel terão as nossas universidades nestes cenários globais e locais? Estarão condenadas a confinar-se ao primeiro ciclo do ensino universitário? Ou terão energia e imaginação para se posicionarem sem inferioridade nos mercados europeu e mundial do ensino superior?

 

Ao mesmo tempo, assiste-se à explosão universitária para a Ciência e a Tecnologia nos países do Oriente, do Leste da Europa e de várias outras partes do planeta. A China produz, hoje, cerca de meio milhão de engenheiros por ano. A Índia aproxima-se destes valores e destaca-se pela criatividade e sentido inovador dos seus jovens graduados. A deslocalização do emprego para esses países, antigamente restringida a trabalhos menos qualificados, generaliza-se hoje à produção científica e tecnológica do mais alto nível. Várias unidades de investigação dos Estados Unidos e da Europa estão agora localizadas na Índia, na China, em vários países do Leste Europeu. Que estratégias têm as nossas instituições de ensino superior e de investigação para intervirem de forma sustentada num cenário internacional com esta dinâmica? Que espaços precisarão de abrir?

 

Alheios a esta evolução, mas preocupados com a falta de trabalho, os cidadãos voltam-se para os seus sistemas de segurança social, esperando que estes lhes paguem o desemprego, que persiste em aumentar. Preparados nas escolas e instituições de ensino superior mais para agirem como funcionários do que para serem autónomos e empreendedores, esperam que o Estado lhes resolva as dificuldades. Infelizmente, num mundo globalizado, quanto mais improdutivos forem os cidadãos de um país menor será o bolo que o Estado poderá repartir pelos necessitados, que serão cada vez em maior número. A atitude de muitos estudantes perante estes factores não é animadora – convictos de que o sistema tem a obrigação de os proteger, persistem em ignorar a tempestade inevitável que se acumula no horizonte, e que nenhum Estado Social poderá evitar. Que poderão fazer as nossas instituições de ensino superior para os precaver e preparar em tempo útil? Que poderão fazer o Estado e outras instituições sociais? Que mudanças de atitude deverão assumir os próprios estudantes?

 

Tem-se assistido também, ao longo das últimas décadas, ao surgimento de modos de produção de conhecimento radicalmente distintos dos do passado. Enquanto que a produção de saberes avançados, tradicionalmente nas universidades, precedia a sua aplicação à realidade económica, hoje grande parte dos saberes de ponta surge no próprio contexto da aplicação industrial ou organizacional. A inovação passa, assim, a surgir no seio de interacções complexas e simultâneas dos múltiplos actores dos processos de inovação – universidades, indústrias e governos – perante desafios socioeconómicos concretos. Várias instituições do ensino superior, das mais avançadas do mundo, começam a deslocar as parcerias com a realidade económica e social da periferia das suas missões para o próprio centro dos seus sistemas de valores. Esta mudança radical, inicialmente apenas visível na produção científica e tecnológica, rapidamente se propaga à actividade de ensino, que passa a confundir-se, em larga medida, nos níveis mais elevados, com a própria actividade de investigação. Que posições estão a assumir as nossas universidades e politécnicos perante estes desafios e com que resultados? Que alianças estão a estabelecer?

 

Além da harmonização das designações e dos níveis de qualificação, o “Processo de Bolonha” vem introduzir novos conceitos e uma nova visão sobre os modelos de ensino e de aprendizagem, com maiores níveis de exigência para docentes e discentes. O “Processo de Bolonha” afigurava-se, há meses, como uma oportunidade preciosa para agitar o sistema, levá-lo a reflectir sobre os seus vícios crónicos e – com trabalho, seriedade e bom senso – prepará-lo para os novos desafios. Ter-se-á conseguido isso, no afã de urgência e de improviso a que se está a assistir? O que se poderá fazer, ainda, para que a oportunidade de Bolonha se não perca, definitivamente? Estará o país preparado para se adaptar aos novos paradigmas de mobilidade que este processo arrasta?

 

Tem sido amplamente comentada a excessiva diversidade de modelos, de instituições e de ofertas educativas de nível superior que existem actualmente em Portugal. Esta ocasião seria oportuna para se definir melhor quer a articulação entre o ensino público estatal e o ensino privado, procurando-se salvaguardar padrões de qualidade e de incentivo em todas as situações, quer a combinação de missões entre o ensino politécnico e o ensino universitário, a reequacionar de novo no quadro do “Processo de Bolonha”.

 

A cultura científica e tecnológica, sendo essencial para uma participação informada dos cidadãos, é igualmente uma condição de base para o desenvolvimento da própria ciência. Não haverá crescimento científico sustentado numa sociedade com um baixo índice de literacia científica. A nossa afirmação na Ciência e na Tecnologia tem, por outro lado, de ser preparada com larga antecedência. Uma população esclarecida, conhecedora das principais aquisições da ciência e dos seus cientistas, constitui também um suporte a um maior investimento na investigação e na produção de saber. O que poderá ser feito para envolver os jovens em idade escolar nos desafios do conhecimento e da produção científica e tecnológica de alto nível? Que parcerias poderão e deverão ser construídas entre os ensinos superior e não superior? Um dado parece certo: o envolvimento da comunidade científica e das suas instituições na melhoria progressiva da educação científica de base dos cidadãos representa o reforço de um pilar da cidadania activa e responsável.

 

Nunca foi tão verdadeira, neste mundo global, a célebre afirmação de Wells de que a história de uma nação é cada vez mais uma corrida entre a educação e a catástrofe. O Desenvolvimento Educativo é a luta, todos os dias renovada, contra essa catástrofe sempre eminente. Que modelos, que referenciais, que instrumentos, que postura cultural, que dinâmicas colectivas estaremos nós a construir para assegurar um tal desenvolvimento? Precisamos de fazer da educação um investimento prioritário de toda a sociedade portuguesa. Que será preciso melhorar na educação da infância? Será preciso alterar o modelo de ensino secundário e nele integrar o actual terceiro ciclo do ensino básico? Como acolher novos públicos, não só em todos os níveis de ensino, mas sobretudo na satisfação das crescentes necessidades de aprendizagem? Como irá o ensino superior acolher os maiores de 23 anos e os idosos, tão disponíveis para aprender, num momento tão importante da sua vida? Qual será o papel do Estado nestas ofertas e como será respeitada a liberdade de escolha dos cidadãos?